2009 - GRANDE PRÉMIO DE

TEATRO PORTUGUÊS

Era Uma Vez Uma Casa

Luís Mário Lopes

Há anos, andava eu à procura de casa e a senhora da agência imobiliária levou-me a visitar um apartamento na freguesia dos Anjos, em Lisboa. Abriu a porta e entrei num corredor muito comprido. Recordo – mas não posso jurar – que, lá ao fundo, estavam dois corpos caídos no chão. Baleados. Mortos.

Fiquei com a casa dos Anjos. Dia após dia, a casa foi-me contando tudo a que tinha assistido ao longo de quase um século. Tenho a certeza de que, de vez em quando, mentiu e inventou. Também eu terei entendido como quis muito do que ela me disse. Não faz mal. É mesmo assim. Uma e outra coisa fazem parte do acordo implícito que se estabelece entre quem conta uma história e quem a ouve.

Agora, a peça que escrevi com a história que me foi contada vai ser posta em cena e o jogo de enganos de que a comunicação é feita ganha novos contornos: uns – os actores – fingem ser quem não são (ou descobrem em si aquilo em que são iguais às personagens; e mostram-no); outros – os espectadores – aceitam prestar atenção à mentira que lhes é contada, confiando que poderão emocionar-se com ela. A emoção é a maneira mais fácil de conseguirmos olhar o mundo com outros olhos, de repararmos em coisas em relação às quais estávamos cegos.

O poder da mentira está também presente, em termos ficcionais, em A Casa dos Anjos. Mentiras e segredos têm tanto de destrutivo quanto de criador nas relações que se estabelecem entre Ana, Eduardo e Maria dos Anjos, as personagens da peça. As dificuldades de comunicação moldam-lhes o relacionamento. Como com toda a gente. Sim, porque, entendamo-nos, desentendemo-nos. Cruzamo-nos mas raramente nos encontramos. Sucede também encontrarmo-nos em tempos diferentes ou tarde de mais.

Passamos o tempo a muscular os poderes que temos. A prepará-los para aquele que é o palco maior da vida: o amor. Às vezes, distraímo-nos ou esquecemo-nos desse propósito. Ou, pior ainda, desistimos dele. Com estas personagens acontece o mesmo. Inevitavelmente, esta é, pois, uma história de amor. De amores. Sempre a mesma necessidade insensata de amar e de ser amado. De ser aceite. De pertencer.

A casa testemunha tudo. O que acontece lá dentro ressoa e reflecte o que se passa lá fora. A casa é, ao mesmo tempo, um abrigo e uma prisão. Como Portugal.


Excerto de LOPES, Luís Mário “Era Uma Vez Uma Casa” in A Casa dos Anjos: [Programa]. Lisboa: Teatro Aberto, 2010. pp. 9-10.