2004 - GRANDE PRÉMIO DE

TEATRO PORTUGUÊS

Entrevista a Jaime Rocha: Uma porta que se abre para falarmos de coisas de que temos medo

Vera San Payo de Lemos

Como é que te surgiu a ideia de escrever esta peça?
Já há muito tempo que eu tinha a ideia de escrever uma peça sobre o racismo. É um tema que me tem preocupado, sobretudo nos últimos anos, agora também com esta imigração vinda dos países de Leste. Como é um tema bastante complicado e eu não queria fazer uma peça muito realista, no sentido de contar apenas uma história sobre o racismo, decidi ter só duas personagens para criar uma peça clara, com uma história e uma mensagem clara, mas dentro do universo um pouco absurdo que eu gosto e caracteriza o meu teatro. Se tivesse mais personagens, se contasse a história de uma família, se tivesse uma intriga, ficava tudo um pouco confuso. Quis ir directamente ao tema e, pela primeira vez, fiz uma peça com um tema muito próximo de nós e daquilo que estamos a viver, muito contemporâneo, muito de hoje, com um diálogo muito directo, envolvido num universo obsessivo. Quis fazer uma peça sobre o racismo em que houvesse um personagem branco, obsessivamente racista, mas com uma aparência de anti-racista, e um personagem negro que já está acima dessa ideia do racismo, que já nem pensa nisso, mas que é obrigado a ser racista pela obsessão do outro.

Que outros temas aparecem na peça para além da questão do racismo?
O tema mais genérico, que sustenta o racismo, é o preconceito. Há toda uma envolvência social marcada por diversos preconceitos, por exemplo, em relação à mulher (a misoginia, o machismo, o autoritarismo), em relação às doenças… Quis envolver a personagem do branco numa série de ideias preconcebidas. Outra ideia que eu quis tratar foi a questão da amizade: questionar o que é a amizade hoje entre as pessoas, como é possível existir afecto entre as pessoas numa sociedade como esta, até que ponto a amizade subsiste.


Excerto de LEMOS, Vera San Payo de “Vera San Payo de Lemos entrevista Jaime Rocha: Uma porta que se abre para falarmos de coisas de que temos medo” in Homem Branco Homem Negro: [Programa]. Lisboa: Teatro Aberto, 2005. p 8.