2000 - GRANDE PRÉMIO DE

TEATRO PORTUGUÊS

Só se morre duas vezes

João Lopes

Somos maus amantes dos nossos amores. Acontece assim com as figuras míticas do cinema. Enquadramo-las num mundo tão ideal e tão distante que, de facto, muitas vezes, só as deixamos viver como fantasmas encurralados na pureza perdida da nossa imaginação. Mas acontece também com os sobressaltos da história colectiva: à medida que o tempo vai passando, tendemos a substituir a dimensão mais crua das memórias por uma ilusória harmonia, polvilhada de uma nostalgia simplista e, afinal, paralisante.

A peça de Pedro Pinheiro, Encontro com Rita Hayworth, fez-me pensar nesse estranho movimento das nossas imagens e das nossas obsessões, das singularidades indizíveis das histórias pessoais e das ambivalências mais perturbantes da história colectiva. Porquê? Porque somos conduzidos numa visita metódica (apetece-me dizer pedagógica, mas receio que a palavra seja interpretada de modo “científico”). É uma visita a um calendário fragmentado onde deparamos com uma das personagens mais lendárias da mitologia de Hollywood - Rita Hayworth, justamente, do tempo dos também lendários cinemas de reprise - e ainda com os restos dispersos e perturbantes de um capítulo nuclear da moderna história de Portugal: a Guerra Colonial.

Daí a moral inerente a Encontro com Rita Hayworth (e, também aqui, temo pelo destino equívoco da palavra “moral”). É uma moral que não recusa nem os sonhos do passado, nem os traumas que, a partir das suas paisagens ausentes, ainda nos falam e convocam. É, sobretudo, uma moral serenamente realista. Ou seja: tudo é presente.

O que, convenhamos, não é pouco. Porquê? Porque, por uma vez, se lida com as memórias da perda do “Ultramar” português, não como um caixão dourado onde vamos contemplar as curiosidades de uma história que passou, antes como um labirinto de dor, ilusão e desilusão que importa continuar a deixar falar no presente - chama-se a isso o luto, e o luto é sempre pedagógico e libertador. Mais do que isso: deparamos com uma Rita Hayworth que tem tanto de inacessível como de carnal. Dito de outro modo: a cinefilia assume-se, aqui, como imaginário da sedução, não recalcando nem a sua dimensão erótica, nem tão-pouco a sua relação ambígua com a evidência da morte.


Excerto de LOPES, João “Só se morre duas vezes” in Encontro com Rita Hayworth: [Programa]. Lisboa: Teatro Aberto, 2002.